Denison Duarte Reis

A ORDEM RELIGIOSA DE SÃO BENTO E OS CONFLITOS COM A ELITE LOCAL

Resumo: A instalação da Ordem Religiosa de São Bento teve como objetivo principal a salvação das almas e a catequese dos índios, porém, sua trajetória até o objetivo não seria algo fácil como se imaginava. Os religiosos passaram a enfrentar muitos problemas com a elite local que até então era detentora do poder político, econômico e social. Este artigo pretende abordar os conflitos que marcaram a chegada e permanência dos Beneditinos em Boa Vista do Rio Branco.

Palavras-chave: Ordem Religiosa – Beneditinos– Elite local – Boa Vista

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A instalação missão beneditina no Rio Branco estava ligada ao temor da igreja católica de perder almas para os “missionários da heresia" , qual se referiam aos pastores anglicanos que iniciaram a primeira missão com o objetivo de catequisar os índios Macuxí na região do Pirarara. Os pastores haviam se estabelecido na fronteira do Brasil com a Guiana Inglesa na segunda metade do século XIX.

Segundo Jaci Guilherme Vieira Doutor em História do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco e autor do livro “Missionários, Fazendeiros e Índios de Roraima: a disputa pela terra – 1777 a 1980”, relata que os primeiros registros de um trabalho eclesiástico na região, encontra-se nos livros de batismos e casamentos e somente após 30 anos sem qualquer registro paroquial, aparecem os franciscanos e fundaram a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo de Boa Vista em 1982, tendo como Vigário o Cônego José Henrique Félix da Cruz, posteriormente substituído, em 1893, pelo Padre Manuel Furtado de Figueiredo que administrou a paróquia até 1909, ano da chegada dos monges beneditinos do Rio de Janeiro para fundar a Prelazia do Rio Branco.

A criação da missão beneditina estava, também, em concordância com as intenções dos líderes papais de presenciar toda região brasileira sendo abarcada pelo apostolado. A organização religiosa foi, inicialmente, centralizada em uma única diocese até o fim do século XIX e após a análise do crescimento populacional na Amazônia, viu-se a necessidade de criar uma nova diocese; desejo qual foi atendido pelas lideranças eclesiásticas.

De acordo com Cirino (2009, p.42 apud Hoornaert, 1992), a sede da igreja em Roma, havia optado pela organização do espaço amazônico em prelazias, ao contrário do que vigorava antes, que organizava a igreja em dioceses. Sendo assim, houve uma ruptura entre as organizações das prelazias e a diocese, ocasionando na formação da primeira divisão clerical ocorrida em 1907, com a criação da prelazia do Rio Branco, dirigida pelos monges beneditinos sob liderança de Dom Gerardo Van Caloen.

A companhia clerical constituída por Dom Achaire Demuynck, D. Bonaventure Barbier, D. Adalbert Kaufmehl e D. Béda Goppert, além dos irmãos Melchior e Gaspard, religiosos colaboradores inseridos na Ordem, voltado não só para a oração, mas também para a manutenção dos conventos, chegou terras amazonenses em 29 de maio de 1909 e foram recebidos pelo corpo religioso local e apresentados para as autoridades locais que estava a postos para a recepção da Ordem Religiosa de São Bento. Dentre as autoridades presentes estavam o comendador J.G de Araújo, precursor de um dos maiores impérios comerciais na região amazônica e o Sr. Coronel Bento Brasil, grande latifundiário e chefe político do Rio Branco, personagem principal responsável pelos motivos da saída dos monges beneditinos da região.

Os monges não permaneceram por muito tempo na região de Boa Vista nem obtiveram muitos contatos com os indígenas. Os problemas iniciaram ainda em Manaus e relaciona-se com as autoridades civis de Boa Vista, mais precisamente com Bento Brasil, cuja família era detentora dos maiores latifúndios da região do Rio Branco e, também, da hegemonia política na vila.

As questões de poder na Região do Rio Branco, durante o início do século XX, possui seus ínterins que compactuam com o momento econômico que a região atravessava, mas também do momento político que o estado brasileiro estava passando ao tornar-se uma jovem República. Fora neste momento que as oligarquias e os grupos políticos na região do Rio Branco se consolidavam similarmente ao coronelismo do nordeste brasileiro. Ou seja, Boa Vista viveu por muito tempo uma fase coronelista composta pelos grandes fazendeiros da região, tendo como principal o coronel Bento Brasil e seus companheiros que geralmente era composto por integrantes de sua família.

Santilli (1994, p.50) afirma que, desde a morte do político Sebastião Diniz, locatário da Fazenda São Marcos, haviam dois grupos de fazendeiros locais que disputavam poder, um deles era o coronel Bento Brasil e o outro era o coronel Cordeiro da Cruz Saldanha.

Ao analisar Michel Foucault, "o poder não é um objeto material, uma coisa; é uma prática social e, como tal, constituída historicamente”. Esse pensamento nos ajuda a compreender melhor o sentido de como era tido as relações interpessoais no Rio Branco. Podemos entender que o poder seria algo inerente ao homem, sendo impossível manter uma relação que não seja marcada por ele. As relações conflituosas entre os monges Beneditinos e as elites locais se dá por meio desta dicotomia.

O primeiro ato conflituoso é marcado ainda em Manaus com uma súbita decisão do então coronel Bento Brasil de embarcar a bordo do vapor com nome de macuxí sem ao menos avisar previamente os monges de sua partida. Conta-se que, quando houve a notificação da viagem para os sacerdotes, todos já os esperavam no cais e pelo fato de já ser tarde da noite, não haveriam mais carregadores para levar as bagagens dos monges até os barcos, fazendo com que seus pertences fossem enviados em uma próxima viagem. A situação foi resolvida quando o comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, qual tinha um armazém no cais, contratou alguns de seus trabalhadores para ajudar a embarcar as bagagens no vapor. Toda essa situação acabara por deixar os monges desolados deixando um receio pela viagem.

Segundo Cirino, ao analisar cartas escritas por D. Achaire Demunynck (1911), constata que a situação em que viajaram os beneditinos era extremamente desconfortável, porém, demostravam bastante resignação diante dos infortúnios, pois acreditavam-se preparados espiritualmente para o que estava por vir.

Ao chegarem ao porto de Boa Vista não haviam nenhum morador pronto a receber a comitiva religiosa, somente o Superintendente fora recepcionar o coronel Bento Brasil e avisar que a residência qual ficariam hospedados os monges, ainda estava sendo residida por uma família achegada a Bento Brasil. Ao ouvir tal relato, os monges entenderam que a súbita partida de Manaus que inviabilizaria o embarque das bagagens e a recepção não tão calorosa como esperava-se, deu a entender que tratava-se de um ato de grande hostilidade para com os religiosos.

A residência que seria utilizada pelos monges durante sua estadia em Boa Vista havia sido emprestada pelo comendador J.G de Araújo por um período de 6 meses sem realizar nenhum tipo de pagamento. Porém, Bento Brasil, por ser o latifundiário com maior poder político e econômico do Rio Branco, detinha a procuração do comerciante para tomar de conta da residência. Com tal poder sobre a residência, o coronel havia alugado a residência para uma família de comerciantes portugueses qual tinha bastante agrado, ou seja, novamente os missionários se viam em uma situação delicada onde não teriam lugar para se instalar, conforme assinala Santilli (1989).

Cansados e com fome, os missionários receberam a abordagem do padre local, Manoel de Figueiredo Furtado, qual os levou para realizar uma missa na capela da vila; capela essa que não tinha a menor condição de funcionar, segundo relatos do próprio D. Achaire Demuynck onde relata que os ornamentos, o altar e tudo que estaria na capela não estava em situação de funcionamento e não era digno de uma celebração. Após a realização a missa, os monges ainda se via na necessidade de encontrar um local para ficar; ao recorrer ao pároco, a solução foi de os missionários montarem residência uma outra casa que estava sob os cuidados da paróquia local. Pouco mais tarde, o beneditinos receberam a notícia de que poderiam ocupar a residência qual estava destinada inicialmente para a hospedagem dos mesmo.

Já com local para ficar, os monges precisaram se deslocar até o porto para buscar suas bagagens e durante o percursos, notaram que alguns dos cidadãos os olhavam pelas janelas de suas casas sem demonstrar qualquer interesse em ajuda-los a carregar as grandes e pesadas bagagens. Logo depois, os missionários descobriram que as pessoas não foram recebe-los ou sequer ajuda-los por medo de represália do coronel Bento Brasil.

Afora as problemáticas até então encontradas durante seu percurso de chegada à região, os missionários encontraram mais um problema qual podemos analisar como mais uma forma de provocar um conflito que provavelmente levaria à expulsão da missão beneditina. A criação da loja maçônica denominada “Paz e Progresso do Rio Branco” estava ligada ao grupo do coronel Bento Brasil onde ainda era líder. Segundo D. Achaire Demuynck (1910, p. 196) a liderança da loja foi posta a julgamentos de desconfianças pelos missionários pois o fundador era aprendiz de 3° grau e não possuía relações com a Grande Ordem do Amazonas.

Ao analisar o que já foi apresentado, podemos entender que a criação da loja maçônica foi somente mais um pretexto para criar um ambiente conflituoso entre a elite local e os missionários da missão beneditina e podemos constatar com o que aconteceu logo no dia 20 de novembro de 1909, quando os monges se preparavam para celebrar o batismo de uma criança qual seu padrinho, Sr. Adolfo Brasil, filho do coronel Bento Brasil, era franco-maçom e por isso D. Adalbert Kaufmehl os avisou que não poderia celebrar o batismo da criança pois a igreja excomungava aqueles que seguiam esta seita religiosa. Não satisfeito, todos seguiram para a frente da casa do Juiz Municipal, Sr. Fábio de Barros Freire para reclamar uma decisão. A discussão tomou proporções inimagináveis quando, no tumulto, D. Bonaventure Barbeir, Superior da Missão Beneditina, recebeu um soco na nuca seguido de um disparo efetuado por Adolfo Brasil que acabou atingindo uma testemunha que tentava acalmar a situação entre os presentes. Diante da situação, D. Adalbert foi escoltado até a igreja sob a mira do revolver para realizar o batismo, enquanto D. Bonaventure Barbeir socorria o cidadão baleado.

Após o ocorrido, os missionários se viram na necessidade de pedir ajuda ao governador do Amazonas e acabaram refugiando-se na fazenda Calungá. Outra situação conflituosa deu-se logo após o episódio do batismo. Segundo Cirino (2009, p. 64) no dia 29 de novembro de 1909 ocorreriam os festejos em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Boa Vista, ocasião em que toda a população local se reunia na vila para as comemorações. Ainda abatidos e amedrontados pelos últimos acontecimentos, em especial as ameaças do batismo, os missionários decidiram não participar dos festejos. A decisão deixou o coronel Bento Brasil e as famílias elitistas bastante chateados a ponto de intimar os monges a comparecerem e prestarem missas nos dias de celebrações ou então eles seriam expulsos e proibidos de realizar missas na vila.

Poucos dias antes dos festejos iniciarem, os monges beneditinos receberam a ajuda do coronel Paulo Alferes Saldanha para que os religiosos se hospedassem na fazenda Capella, onde seria um local seguro para ficar. Assim que encerrou-se as festas em homenagem à padroeira de Boa Vista e a ciência da mudança dos missionários para a fazenda Capella acabou deixando Bento Brasil furioso. A medida foi imediata. Houve represália da parte da elite local onde fora decretada a prisão de algumas pessoas que auxiliaram nas mudanças dos monges assim como a ocupação da igreja pelos homens do coronel.

Pouco tempo depois o coronel não se via satisfeito com a represália contra os monges e em janeiro de 1910 Bento Brasil realiza uma denúncia a Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt (1853-1926), governador do Amazonas, informando que o grupo dos monges beneditinos e seus aliados fazem parte de uma conspiração contra o atual governo. Segundo a denúncia, os monges possuíam armamento pesado como dinamites e armas, além de ter 40 homens prontos para a batalha os aguardando na fazenda Capella

Confiando na palavra do coronel Bento Brasil, o governador manda um pelotão de 10 homens munidos de armamentos, um comandante e um suboficial que ao chegar ao local, organizou uma grande estratégia que acabou encurralando os missionários e serventes da fazenda dentro da casa principal. Convictos de que os conspiradores não se renderiam, o pelotão iniciou os disparos com intuito de ceifar a vida daqueles que se opuseram ao atual governo e só cessaram após D. Adalbert Kaufmehl pedir rendição e solicitar garantias para o encontro com o comandante da tropa. Ao explicar a situação ao comandante e o mesmo averiguar a real situação, confirmou que o ataque fora desnecessário e que as acusações eram inverídicas. Os missionários acabaram pedindo ajuda ao Governo da Bélgica para intervir no caso, o que fez com que a loja maçônica e seu representante, Bento Brasil, a recuar as hostilidades.

Entende-se no Brasil, como usual e adequado, aquilo que advém de uma elite, mais ou menos, bem informada e detentora das propriedades. Mas que sempre acaba exercendo o poder, e por vezes perpetuando o seu exercício por gerações, assim sendo, quando se procura pesquisar a história regional, independente do lugar, deparamo-nos com empecilhos de natureza política que, por vezes, se utilizam de influência e força para impedir a conclusão, ou até mesmo o início de certos trabalhos.

A região da vila de Boa Vista tinha o coronel Bento Brasil como seu representante local, assim como vários outros patriarcas que representavam suas famílias na região. Podemos utilizar Foucault e referir-nos a noção de poder quando entendemos que esses representantes ou autores sociais se utilizam para controlar determinada região ocupando lugares nos mais diversos meios, como por exemplo o político, influenciando e assumindo o papel de Estado, saúde, além de utilizar os meios midiáticos ou festivos para mostrar o tamanho de seu poder ou mostrar que pode e se preocupa com a população.

O que aparece como evidente é a existência de formas de poder diferentes do Estado, a ele articuladas de maneiras variadas e que são indispensáveis inclusive a sua sustentação e atuação eficaz, isso porque nos deparamos com a ótica de Foucault e percebemos que de fato "o poder não existe, existem sim praticas ou relações de poder. O que significa dizer que o poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona para aqueles que sabem utilizá-lo".

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CIRINO, Carlos Alberto Marinho. A “Boa Nova” na língua indígena: contornos da evangelização dos Wapischana no século XX. Boa Vista: Editora da UFRR, 2008.

DEMUYNCK, D. Achaire. Lettre du Rio Branco. In: Bulletin de Oeuvres et Missions Bénédictines au Brésil et au Congo. Tome III, Bruges, Belgique: Abbaye de Saint André, 1910.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 24ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

SANTILLI, Paulo. Os Macuxi: História e Política no Século XX. Tese de Mestrado da Universidade Estadual de Campinas. Unicamp, 1989.

VIEIRA, Jaci Guilherme. Missionários, Fazendeiros e Índios em Roraima: a disputa pela terra – 1777 a 1980. Boa Vista: Editora UFRR; 2007.